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Entrevista Monografia FAAP (2002)

Monografia A Influência da Música nos Treinamentos Comportamentais : Dinâmicas e Vivências

 

Curso de Pós-Graduação Administração em Recursos Humanos – Turma 41/2002

 

(Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP)

 

 

Elaboração:

 

 

ENTREVISTA – GUILHERMO SANTIAGO

 

 

Formandas: Quando e como surgiu a ideia de estudar a música e seus reflexos no comportamento do ser humano?

 

 

Pelo que me lembro eu tinha 9 anos de idade e estava vendo televisão junto com o meu irmão, e um som da televisão me fascinou, me arrebatou de tal forma, me sensibilizou e eu fiquei durante um bom tempo, alguns dias com aquele som e meio impactado com aquilo. Semanas mais tarde, minha mãe me mostrou o que poderia ser aquele som e então me mostrou a foto em uma revista de um homem tocando uma flauta de bambu e como eu morava em uma cidade muito pequena, Herval do Sul, com 2000 habitantes, não tinha músicos naquela época na cidade. Tanto é que para se fazer bailes era preciso trazer músicos de outras cidades. Então eu fui no mato cortei um bambu; naquele período eu já fiz escala, medi a flauta na fotografia e fabriquei minha primeira flauta. E como não havia músicos para me ensinar música com partituras da forma correta eu aprendi sozinho pois eu estudo o som que é  a matéria prima da música. Eu ia para o meio do mato para imitar os sons dos passarinhos com aquela flauta, passava uma carreta na frente da minha casa, eu  ouvia o som da carreta e tentava imitar exatamente aquela nota do som da carreta. E por aí eu comecei a estudar e ver esses efeitos que davam no organismos e na psiqué.

 

 

Formandas: Relate as experiências mais marcantes que você já teve durante esse seu estudo ou em algum trabalho efetuado.

 

O que me lembro são de duas experiências, na verdade eu viajei durante 10 anos pela América do Sul estudando o som. Chegava nas comunidades, percebia as crenças que ela tinha e os sons que ela produzia. E não só o som da comunidade mas também o som da geografia do lugar, então traçava analogias e fazia comparações. Lembrei então de duas estórias que me marcaram muito. Uma foi em uma das tribos indígenas que morei. Morei em uma tribo próxima a Palmas em Tocantins por um ano a convite do cacique que era alcoólatra. A sua doença era tão intensa que ele prostituía sua esposa em troca de uma garrafa de cachaça. Lá eu fui fazendo um trabalho com as crianças, pois me identifico melhor no trabalho com elas porque elas experimentam. Desde bem antes eu já desenvolvia o projeto unicórnio que é voltado para a criança e para a criança que existe no adulto.

Lá na tribo comecei a mostrar os sons que eu havia pesquisado, os instrumentos que eu carregava e eu seduzi as crianças com o som. Então criei um jogo para resgatar a cultura usando o “contar estórias” e crenças daquele povo. Esse jogo era a trilha sonora para a estória, ou seja, elas tinham que contar a estória e a música – ilustração sonora – para aquela estória. As crianças iam até os mais idosos e pediam para lhes contar as estórias e, no outro dia elas contavam.

O cacique, percebendo a movimentação e percebendo que elas tomavam essa atituda pró-ativa, em relação até mesmo a sua sobrevivência cultural, parou de beber e ele mesmo começou a ensinar as danças e estórias para as crianças.

A segunda estória começa logo depois que eu saio da terceira tribo indígena, morei com os Xerentes no Tocantins, depois na iIlha do Bananal com os Javaés e depois ainda na nação Carajá no Mato Grosso. Ao término com essa última tribo, onde havia morado para estudar o som étnico e sua percepção em relação ao som, fui morar com um grupo não indígena de sem-teto, que por motivos econômicos foi morar no meio do mato como índios, construindo suas malocas e tudo mais. Eram 180 pessoas e o índice de violência era assustador com pelo menos 1 morte por mês e 2 a 3 brigas por semana. Uma característica peculiar desse grupo era que eles não cantavam, tocavam ou assobiavam. Enfim não havia a comunicação sonora. Comecei então um trabalho com as crianças todo o final de tarde onde as reunia para fazermos sons. Como não havia motivação para elas irem ao mato buscarem os instrumentos começamos a fazer os sons com o próprio corpo. Na época não sabia que aqui em São Paulo já havia o nome de Percusão Corporal, mas era a alternativa que tinha para poder movimentar o grupo. Os sons eram de batida no peito, estalo de dedo e batida de palma que se tornaram as células ritmicas com esses elementos. E então os adultos começaram a sentar nas portas das casas para perceber e ver o que estava acontecendo. Era evidente que existia uma barreira que impedia esses adultos de participar, principalmente pelo ridículo. E então em um dos dia mais importantes para mim eles, depois de 4 meses de trabalho, me ensinaram uma nova forma de tocar, que até então eu não conhecia, que era a de tocar uma melodia sem usar o canto ou a voz. Nesse dia 7 de setembro enquanto uma parte fazia a percussão corporal um outro grupo batia palmas com as mãos em concha na frente da boca fazendo nota a nota o Hino Nacional Brasileiro.

Outra importante experiência foi em uma clínica de altistas em Goiânia. O som é físico, deslocamento de moléculas e por isso nesse caso não deve ser confundido com entretenimento. Tudo que vibra tem um som, conseqüentemente temos um batimento cardíaco que vibra e por isso nosso coração tem uma nota musical definida, assim como todos os órgãos que pulsam no nosso corpo.

Nessa clínica havia um grupo de estudo que experimentava, formas de comunicação com esses indivíduos altistas. O meu papel era identificar a nota musical do batimento cardíaco de cada um desses indivíduos altistas. Quando eu descobria essa nota musical eu criava a trilha sonora que servia como ferramenta de comunicação dos médicos com o altista. Em 90% dos casos foi assertiva essa comunicação. Essa foi a certeza para que eu continuasse nesse caminho.

 

 

Formandas: Acredita que a música seja realmente importante para o bom desenvolvimento de um treinamento. E qual o impacto deste treinamento no dia-a-dia profissional?

 

Existem tantas formas de abordagem mas vamos por partes. A música nasceu do nosso organismo, o ritmo nasceu do batimento cardíaco na pré-história quando alguém percebeu que algo batia dentro dele, externalizou e aí nasceu o ritmo pois nosso batimento cardíaco é constante. A melodia nasceu do canto dos pássaros passando também pela migração de outras culturas e outras formas de comunicação, de acentuação, sotaque, etc. Um bom exemplo é um gaúcho que vai para o nordeste. Ele fala completamente diferente e aí quando o nordestino tenta imitar o gaúcho nasce a melodia. Então a música nasce do nosso organismo e porque não o retorno dessa música para o nosso organismo?

Algumas pessoas gostam de acordar ouvindo Bolero de Ravel porque ele começa devagar e termina em um crescente quando a pessoa está pronta para trabalhar. Isso é uma motivação, é  uma forma da música acompanhar o seu processo. Um outro exemplo são as pessoas que estudam com uma música ligada. Aqui entra a Neurociência, pois o cérebro não consegue processar duas coisas ao mesmo tempo. Com a música ligada ele tem um estímulo que o mantém acordado e ficando acordado ele tem foco no estudo. Outro exemplo da música no cotidiano é o carnaval pois é humanamente impossível pular 4 dias ou até 1 semana sem um tambor pulsando. Tente pular 3 dias sem um tambor pulsando. Não há como pois seu organismo não resiste e perde o ritmo. Outro exemplo na História onde o ritmo era usado não como entretenimento eram as galés. Os escravos remavam no mesmo ritmo determinando uma velocidade. Existiam compassos de abordagem, de descanso, etc. e todo esse ritmo era feito com tambor. A marcha foi inventada na idade média e é um compasso binário pois somos bípedes e isso incentiva o caminhar. Era calculado a distância e o tempo que era necessário para se chegar ao ponto onde se ia guerrear. A partir daí criava-se o ritmo adequado a velocidade que ia bem ao passo do soldado para se chegar ao local. Enfim são exemplos práticos de que a música está na nossa vida.

Em um treinamento uma música pode relaxar um grupo em 2 minutos, que é o tempo de duração de uma música. Você pode deixar uma pessoa tranquila em 3 minutos. Você pode deixar um grupo receptivo em 3 minutos, etc. Isso é importante pois você têm o grupo totalmente focado e comprometido.

 

 

Formandas: O que diria para as pessoas que não acreditam na força da música?

 

 

É só ter um pouco mais de atenção na vida, no seu cotidiano. Uma buzina toca porque você cometeu uma infração, isso é um som e conseqüentemente uma música que está te avisando. Essa buzina é feita nesse timbre para te avisar, assim como a sirene de uma ambulância. Esses sons fazem parte do nosso cotidiano.

A única cultura que não aplica a música como ferramenta é a cultura ocidental. Os índios, os africanos, os birmaneses, asiáticos, indianos usam o som e como conseqüência a música como ferramenta. Nós não usamos e nos dizemos civilizados e evoluídos. Provavelmente essas pessoas estão perdendo um tempo muito precioso e uma ferramenta muito preciosa.

 

 

 

Comentários das Formandas sobre a Entrevista

 

 

 

Lendo atentamente as palavras de Guilhermo Santiago, chegamos a uma triste conclusão: nós ocidentais, infelizmente só sabemos apreciar a música em um momento de diversão e nos esquecemos de perceber o quão importante ela é em relação à cultura, religião e, principalmente, educação.

 

As experiências passadas por Guilhermo, retratam, felizmente, casos de sucesso onde a música foi utilizada para contatar portadores de doença mental, ajudar dependentes de drogas, passar uma informação e até mesmo, desabrochar algum sentimento que, por algum motivo, não tinha sido tocado.

 

Em suas respostas, o entrevistado passou informações ricas em relação à música no treinamento comportamental, como por exemplo, o fato de se relaxar uma turma no prazo de dois minutos, que é o tempo (normalmente) de uma música. Desta forma, o facilitador economiza tempo (algo valioso em um treinamento), utiliza um recurso diferente (o que desperta o interesse por parte dos treinandos) e alcança seu objetivo (desde que seja o de acalmar o grupo, como neste exemplo).    

 

Por ser um estudioso da música e também um docente em instituições organizacionais, acreditamos que a frase final do entrevistado, desperte um pouco de curiosidade e de vontade nos instrutores de treinamentos comportamentais, para que daqui para frente, enriqueçam seus trabalhos com a utlização da música, divulgando desta forma, um dos mais preciosos recursos em termos de relaxamento, distração, euforia, alegria, pensamento, raciocínio e, principalmente, crescimento: “(...) provavelmente essas pessoas estão perdendo um tempo muito precioso e uma ferramenta muito preciosa.”

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